Vida e colonização 
Quando a gente fala de um relato,  a partir de um contexto pessoal, vendo a conjuntura hoje de um Brasil que está entrando em um digladeio de religião, a gente percebe, a partir  de uma maturidade, o engodo que nós brasileiros sempre vivemos. 
A minha origem vem desde a colonização, quando os portugueses chegam aqui e eles encontram os índios. Me trazem os escravos e vêm os europeus junto com eles. Começa a fundação do Brasil.  Uma miscigenação, que isso é a realidade do Brasil, que passou por alguém transando com índio, por um índio transando com negro, e nascendo filhos. Não se tem uma origem pura, é índio com índio, negro com negro, europeu com negro, europeu com índio, e a gente vem dessa mistura. E obviamente passando por essa mistura, de miscigenação de pessoas, e eu não vou dizer raça, que quem tem raça é bicho! Sou animal, mas não sou ainda esse tipo de animal. Quando as pessoas se juntam e criam um relacionamento que nasce outro, obviamente que quando chegou na minha época, eu já cheguei colonizada.
Colonizada também pela parte religiosa, que foi esse o ponto fraco que os portugueses pegaram, pois um líder religioso pega nas pessoas pela sua fraqueza. Eu venho da Bahia, de um Estado completamente negro. Em um Estado com a origem de candomblé, herdada pelos negros que lá foram escravizados, e aí eu entro no catolicismo. Passo para a minha vida adulta em uma reflexão, começo a ter o entendimento de todos aqueles santos que são tradicionais na igreja católica e abandono aquilo e entro para a religião evangélica, vou ser evangélica. Quando a gente procura a religião, ou procura estar atento ou acredita em Deus, vai passando por uma evolução que não é só do acreditar, vai também do idolatrar, da oração. 
Eu vou buscando um Deus que cada religião vai me ensinando o que é. No catolicismo eu tenho vários mediadores para falar com Deus. Eu vou para a religião evangélica e compreendo que Deus não precisa de mediador entre mim e ele. Aí eu entendo que existe Deus, existe Jesus, e existe o Espírito Santo. E que, na realidade, Deus estava tão desgostoso com a humanidade que ele resolve se fazer homem e vir em forma de filho. E uma coisa dentro dessa questão espiritual que é toda a essência de Deus é o Espírito Santo, a gente nunca pode duvidar que é toda essa essência. 
Como nasci na Bahia, sempre tive também presente na minha vida o candomblé, embora eu nunca tenha levado o candomblé tão avante e conheça os rituais, os santos. E aí, tem mais dentro de todo o meu contexto: o que eu aprendi foi que os índios eram pagãos porque chamavam a lua de Jaci, o sol de Tupã. E na realidade, esses ensinamentos vêm e, como se fala, é cultura. Qual é a cultura de cada povo? Que é que eles fazem? Os nomes que eles indicam? 
Eu passo por todo esse período e deixo de lado os índios, deixo de lado os negros com a fase do candomblé, e eu venho na colonização da minha família, eu venho do catolicismo, vou para o evangélico e abandono tudo isso que são sabedorias. Hoje, na minha maturidade, eu tenho a compreensão que na realidade somos povos que falamos línguas diferentes. 
Quem lê o Evangelho, a Bíblia, vê que Deus, lá trás, passou por isso também, quando houve o momento em que os povos todos falavam uma única língua e alguém se intitulou líder e queria construir uma grande torre para ir direto falar com Deus. Era a Torre de Babel. 
Deus aí diz “Ah, vocês tão querendo me ultrapassar? Derruba essa torre!”. E diz “A partir de hoje vocês vão falar cada um, um tipo de língua”. E na realidade, o que o índio prega, quando ele fala de Jaci, de Tupã? Ele não está dizendo que adora eles. Ele está dizendo que Deus deixou eles com elementos da natureza que têm que ser cultuados, como elementos que na realidade representam a criação. Porque quando Deus criou o sol, criou a lua, ele quis dar um tempo para nós. Ele quis dizer que, durante o dia, o sol ficaria a brilhar, quando a gente efetua o trabalho, o dia-a-dia, o corre-corre. Quando ele coloca a noite é porque precisava que a gente lembrasse da hora de descansar, de dormir, de fazer alguma coisa para recomeçar no outro dia. Por formas de línguas diferentes, a gente vem um digladiando o outro, por conta de religião, que religião sempre separa o homem de Deus, quando na realidade todos os povos de crenças diferentes estão cultuando um único ser, que é a Deus. 
Então eu quero fazer um reverso, agora eu quero de fato compreender o que é o candomblé. O que eles reverenciam? Porque eu ouço histórias de quilombo, lá trás, uma forma que os negros tinham de não se render à catequese dos portugueses e de chamar seus os próprios santos, de ter seus próprios orixás em que cada um representa uma força da natureza que nada mais é..... o quê? Reverenciando a um único ser sublime que é  único e que é Deus. É bobagem a gente hoje viver se matando, e afirmar que a minha religião é melhor que a sua. 
Eu estou falando de um evangélico extremista, reacionário, que não tem entendimento. Aquele que vê em Deus um individualista, um Deus egoísta, um Deus de morte. Estou falando de um evangélico que tem em Deus o maior carrasco da humanidade. Estou falando de um evangélico que diz que se eu não tiver um saião, se eu não viver dentro de um local que eles intitulam de igreja, eu não sou merecedora. Se eu não tiver um cabelão, se não viver com um véu cobrindo meu rosto, eu não sou merecedora do amor de Deus. Gente, esse não é o Deus de quem  verdadeiramente aprendeu a ler uma Bíblia, o maior acesso que se tem à verdade pura; e que a gente ainda pode ler, porque ela vai ser queimada também.

Religião e movimento social 
Eu conjugo religião com lutas sociais quando eu passo a ter a compreensão do Novo Testamento, quando que a gente vê como Jesus nasce. Jesus nada mais é do que o próprio Deus transformado em homem.   
Quando José entra no Egito como escravo, e ele sai como um dos maiores homens, conselheiro dos faraós. Depois ele traz a nação de Israel toda para o Egito. O Egito é a África, gente! Está na Bíblia, já estava! Então quem mais tem entendimento daquela andança... E aí José morre e o povo hebreu volta a ser escravo dentro do Egito. A gente vai aprendendo, vai vendo todo esse percurso, que na realidade o povo de Deus que sai, as nações que foram criadas ali, elas saem em busca de um local, para ter uma terra próspera.  Quando chega o Novo Testamento, esses homens entram nas suas nações, e cada um vai escolhendo os seus líderes, várias tribos. São doze tribos de Israel, são doze tribos dos hebreus, e ali têm-se doze líderes, e cada um toma um discernimento. E assim, os doze líderes dessas tribos vão tendo filhos, que vão liderando povos, e vão se separando e criando outras nações.  E quando vão criando novas nações, eles vão também se esquecendo da própria criação e da própria origem. A humanidade evoluindo em um contexto tão errado que, ao evoluir, peca-se em não conservar o velho, a origem. Quando a gente não conserva a origem, a gente não tem narrativa. Os filhos não conservaram essa origem dos anciões, é onde  nasce toda essa divergência. Eles esqueceram da sua origem, ao sair do Egito, em busca da terra prometida.
Se a gente for pegar a história da Bíblia, sempre existiram homens que andaram em busca de algo melhor. Quando Moisés faz o percurso para buscar a terra prometida, ele está buscando o melhor: casa, pão, educação, uma liderança, uma governança justa. Então, lá trás, no Velho Testamento, já tem isso. É só pegar a bíblia, gente!, e ver a história até ela chegar em nós. 
Quando tenho a compreensão de que nada nos afasta, no momento em que eu estou em uma liderança de um movimento social, eu estou fazendo o mesmo percurso. Não estou querendo aqui entrar no contexto de que eu sou igual e que tenho a mesma relevância que aqueles homens de Deus ou de Jesus, não. Pelo contrário, eu sou humana, sou pecadora, sou errada. Mas eu tenho uma direção, dentro da religião, do contexto de crer, eu tenho uma direção. A direção é Deus. A direção de todo ser humano é Deus. Se você tem essa direção, você procura errar menos. Mas você não pode ser 100%. Só existiu um que foi perfeito. Foi perfeito mas mesmo assim foi tentado. Foi tentado de todas as formas para que caísse. Mas a tentação não era para ele negligenciar o bem ou o mal. Era uma tentação de luxúria, que é a tentação que a gente cai hoje. É a tentação que a ganância traz, a austeridade traz. Essa é a tentação. E nós, seres humanos, também somos tentados, e é normal. O que não seria normal é eu ter ou pensar ou achar que sou igual a Jesus Cristo ou achar que eu sou melhor porque eu sou da igreja evangélica, ou achar que eu sou melhor porque eu ando na igreja católica, ou achar que eu sou melhor porque eu sou de uma doutrina tal.

A terra prometida de um movimento social
A terra prometida de um movimento social é uma terra da igualdade justa. É uma terra onde se tem direito a uma moradia, a uma educação,  à saúde, a ter direito às políticas públicas. A terra prometida de um movimento social é as políticas públicas de igualdades igualitárias. Não é justo uns terem mais e outros terem menos. Não é justo se negar a educação, não é justo se negar cultura, não é justo se negar o direito até mesmo de ir em um templo, não é justo se negar o direito de ter um teto. Essa é a terra prometida dos movimentos sociais. Cada um com seu quinhão dessa terra prometida.
O caminho do movimento social, para alcançar a terra prometida, acima de tudo, é diálogo, é ideologia, é cautela e acima de tudo persistência e não negar a sua existência. Hoje eu escuto muito a palavra resistir, mas eu não quero resistir. Eu já resisto, eu quero só reexistir. Hoje eu tenho uma maturidade de enxergar, nesse momento em que nós estamos vivendo, que é o caminho do direito, da lei. Já existem as leis, já existe o direito. E as leis não são só aquelas da constituição, dos direitos universais. Mas a lei também que está dentro da Bíblia. Não posso apagar tudo isso. Então é reexistir, e não fugir daquilo que você busca.  
Movimento social e governo do Brasil em 2019
Eu aprendi que toda autoridade que é elevada, nós cidadãos temos que ter respeito por ela. Mas é um respeito não ao que ela, a autoridade, pensa, não é admitir que ela está certa. Já que ele foi elevado a governo, é ele mesmo quem vai auto se derrubar. Somos nós que vamos estar aqui prontos, prontos para essa queda. Porque a pessoa que é elevada a governar, ela tem que ter uma sabedoria extrema. E a sabedoria não é a de fazer conta de quantos barris de petróleo eu vou vender para fora. A sabedoria de um bom líder é a de saber o que é que os seus liderados necessitam. Quando a pessoa não tem isso, começa-se um governo repartindo uma nação. 
 Às vezes, nós, lideranças de movimentos, muitas vezes diminuímos para somar lá na frente. Mas o que está havendo no Brasil hoje é uma separação, é um clamor de ódio. De separar os indivíduos, separar...  Eu não gosto muito dessa palavra indivíduo, porque se dá no individualismo, mas é separar os divíduos, é separar as pessoas. Porque nós somos coletivo, nós somos coletivo e quando a pessoa já prega isso, obviamente, se não tiver no meio do caminho a consciência de realmente ver que está errando, a queda, o bastão, a queda cai.
E quando cai, nós é que não podemos cair juntos. Se fala muito em desobediência civil também. Essa é a forma. Mas se a gente não sair do contexto do direito e da lei, quem vai cair não somos nós. Nós já estamos aqui, ó. Quem se elevou, quem foi elevado à autoridade, não fomos nós. A autoridade que ele foi elevado é a autoridade sobre todos da nação brasileira, independente de cor, independente de religião, independente de ser de classe social, ele foi elevado à autoridade. E quando a autoridade não tem sabedoria, é justo que vai, ó, pá! 

Por uma nova política
O povo caiu no engodo. O povo votou no presidente eleito, o senhor Bolsonaro. Mais ou menos metade daqueles que votaram nele, fez por interesse próprio. Metade não, mas 1% [da população] fez a cabeça dessa metade, para cumprir seus interesses capitalistas, neoliberais. Esse 1% tem um pensar de domínio que vem lá desde 500 anos atrás. É a casta que vem desde esses tempos remotos. Eu pergunto: o Brasil quando os portugueses chegaram aqui, quem denominou, demarcou terra para eles? Quem disse que ali era deles, esse pedaço era da família tal? Foram que esses tais de Bandeirantes, que saíram iguais a loucos pegando pedaço de terra. E aí eles foram se esparramando e foram descobrindo que o Brasil é uma terra inteira, que a América Latina inteira é uma terra muito rica, e que aqui estava a solução dos problemas deles. Não precisava mais eles voltarem para Portugal, para Europa, voltar para onde eles quisessem voltar, porque aqui estava a solução. Aqui tem minério, aqui tem recursos naturais, aqui tem muito petróleo, aqui tem muito ouro, tem muitos minerais. E eles vão explorando, porque eles têm como explorar, e eles não dividem. Esse sempre foi o problema do Brasil. Esse 1%, que é uma casta, e tem aqui embaixo uma turma que acha que um dia vai ser 1%, né? Isso que é o engodo maior do Brasil. 
Então, nesse momento, a gente tem uma autoridade que também caiu no engodo, no ego, “eu sou o cara”, “eu vou fazer, eu vou acontecer”, e se esqueceu que o Brasil não tem simplesmente só aquela turma que votou nele. O Brasil é uma nação imensa. Ele não pode trabalhar só, ele tem que escolher um bom circuito de pessoas que esteja ao seu redor para fazer o trabalho bem feito, que ele não vai ter olhos de tandera, olho de tigre, para olhar tudo. Se ele não tiver bons assessores, ele está ferrado também. Ele é derrocado antes da hora que ele imagina que vai reinar. 

Imaginação política
Em todo mundo está batendo uma consciência, tem-se procurando um meio de ir se juntando para fazer algo. O que nós temos que aprender é que nós não podemos nos individualizar. Eu não posso discutir moradia se eu não discutir o que está em torno de uma boa moradia e que não é simplesmente apenas uma boa construção, não é um concreto, vigas boas, um bom piso, uma boa pia, um bom móvel, não é nada disso....O cidadão não pode viver fechado em um quadrado. Ele precisa de educação, saúde, cultura, lazer. Precisa ter um bom termo jurídico, precisa de um Estado atuante. Se nós temos uma célula de cada um desses segmentos, se aprendermos a nos juntar, olha o quão forte nós somos. Não é se juntar pra ficar fazendo oba-oba, reuniões, é se juntar com ações. Se eu tenho um grupo que nunca teve acesso a uma leitura, a ir numa biblioteca, a ter um bom livro, por que os autores não vão até esse público? Fazer roda de leitura, de conversa. Se quem trabalha com educação vive restrito na educação, restrito nas salas de aula, com uma carga horária, às vezes tem que trabalhar em três, quatro escolas. Então, libera uma! Vem fazer uma turma aqui, uma sala de aula popular. Quantas têm vontade de estudar, que amam ler, amam fazer uma conta? Já pensou em uma sala de aula itinerante? Quantas pessoas querem fazer universidade? Mas aí tem que passar por várias sequências...Então é olhar para tudo que é inoperante hoje. Se essa rede tiver sabedoria de operar, esse é um modo de governar, sem fugir do Estado. Nós queremos fazer parte do Estado, e não ser à parte. Nós só queremos que o Estado nos reconheça e apontamos que o Estado é falho. Ele é falho quando ele não tem escuta, ele é falho quando ele, de quatro em quatro anos, deixa que a política partidária assuma as políticas públicas, assuma a direção de um governante. Quando o governante ganha eleição, acabou partido político, ele governa para uma nação, nação que usa verde, nação que usa azul, que usa rosa, que usa o roxo. 

De portas abertas, rede
A gente tem a coragem de abrir a porta [para ocupar], quando a gente entra [numa ocupação], a gente faz de volta o reverso. A gente entra, a gente se empareda, fecha a porta. Assim, eu tomei uma decisão de realmente acabar com isso. A gente não pode mais viver emparedado, viver sectário. Aquele que veio comigo já tinha ideia de ocupar porque precisava de moradia. Mas e os outros que estão lá fora? Eles também precisam se agregar, porque a moradia precisa ter outros atores, juntos. Quando se ocupa e se fecha, não se consegue expandir para nada. Eu só vou ter liberdade para que as pessoas me julguem e terminem o seu julgamento quando elas me conhecerem. Se elas não conhecerem o movimento de moradia, elas vão ter o julgamento que os outros fazem, a vida inteira.
E justamente, a Eliane Caffé quando ela chegou com a proposta do filme [Era o Hotel Cambridge, 2016] eu disse a ela ‘tudo bem, eu faço o filme, mas desde que você fique um ano com a gente, você venha participar do movimento’. Senão seria uma história, uma ficçãozinha, que ia embora e nada traria. O Aparelhamento, se nós tivéssemos desistido, não estaríamos aqui. E através de vocês, quantas outras pessoas vieram? E assim vai se formando a rede...
Eu vejo a necessidade de a gente ampliar saberes. Não é ambição. É a contemplação de estudar melhor e de compreender e trocar saberes, porque quando há troca de saberes, a gente começa também a se humanizar. Como é que eu posso entender um artista se eu não compreendo a alma desse artista? Como é que eu posso falar de um pessoal LGBT, se eu não tiver esse contato com ele? Como é que eu posso falar de uma senhora católica, se eu não entender ela? Para quê esta rede? Eu chamo de sonho o fato de ter essa rede girando e trocando saberes. Para que eu tenha entendimento, eu tenho que ter troca de saberes. E a troca de saberes fortalece, amadurece e te humaniza.  
Eu não sei se isso acontece com vocês, mas quando a gente está na doutrina evangélica, Deus fala com a gente assim: “Não precisa ninguém apontar o teu erro”. O Espírito Santo é aquele que te incomoda quando você comete algo que Deus não gosta. Tem o espírito acusador, também. Não sei se vocês já tiveram essa sensação de cometer algo e ficar com a consciência pesada. É o Espírito Santo te apontando, dizendo assim para você: “Você errou, você vai ter que ter uma capacidade, de pedir desculpa ou não, mas saiba que você errou, esse não é o caminho”. 
 E eu falo assim sempre para as pessoas: “fica sozinho”, você vai se ver com a sua mente...  Porque se corpo e mente não estiverem em sintonia, você faz muita loucura.  E os pensamentos eles já vêm no auge de te acusar ou dizer que você está certo. Então esse lapso, a gente já nasce com ele, é a alma. A alma começa na mente,  quando a gente tem a capacidade do pensar, a capacidade de discernir do certo e do errado.  Agora, têm seres humanos, que eu não sei se é a evolução ou não faz evolução, que às vezes comete coisa errada a vida inteira e não está nem aí para esse lapso de consciência. Ou então lava a consciência com outra coisa.
Por exemplo, a gente vê esses ataques aí nas redes sociais, e essas pessoas que andam atacando, às vezes elas só querem ter um momento de lavar a consciência delas, não é...  E acredita em algo e quer ajudar naquele algo que ela acredita, a gente também tem que ter o entendimento dessas outras pessoas também, todas as pessoas. O que seria de nós, se todos nós fôssemos iguais, se pensássemos iguais? 
Então essa rede tem que ser mesmo abrangente, e é um sonho, eu não digo que é ambição não, eu digo que é sonho das pessoas se escutarem mais, aprenderem mais com umas as outras, distribuírem aquilo que aprendem.

A luta comum
Existe hoje uma separação entre nós que é de classes e que vem desde um tempo remoto.  Aquele que vai crescendo em um certo meio, ele vai criando os ritos que são impostos pela sociedade. Uma pessoa que tem pai e mãe ricos, vivos, e mora na casa deles, ele acha que é dono. Mas ele não tem casa! Ele pode lutar por uma moradia. Mas ou ele luta pela moradia na forma estatal, que é a forma que o Estado, como política pública, tem que prover, ou o pai e a mãe vão ter que ter um consenso e construir algo para ele.  Têm outras pessoas que vão ter uma condição melhor, trabalhadores que pagam aluguel, ou moram com um amigo, com a mãe, com o pai.  É sem-teto do mesmo jeito, só que não tem ainda a liberdade de enxergar isso. E aí que é que ele faz? Ele se separa de nós que estamos lutando por um contexto geral. Quando eu falo em moradia acessível, eu não estou falando somente para o miserável, para o trabalhador de menor renda, para o desgraçado que está lá num barranco. Eu estou falando pra uma cidade, eu estou falando de uma política macro, o Estado é macro e tem que prover. Então, as pessoas que pagam aluguel, moram de favor, elas são trabalhadores sem-teto iguais a nós. Então é a luta ela é macro. Ela não é uma luta simplesmente para um certo número de pessoas. Ela não tem que ser rotulada: “você é desgraçado, eu vou construir uma casinha para você em tal canto afastado do mundo que é para você ficar lá dentro de suas quatro paredes e esqueça”. Nós somos uma cadeia, o ser humano é uma cadeia, um precisa do outro.  
No programa “Minha Casa, Minha Vida” [governo Dilma Rousseff, lançado em 2009] existiam duas fases, uma fase boa e uma fase ruim. Ele deu certo quando possibilitou às prefeituras que aderiram ao programa, e possibilitou que a moradia..,que o programa fosse construído onde existia a área urbanizada. Ele deu errado quando foi levado para um local totalmente distante da área urbanizada, onde você vai criar um exílio. Ele deu certo nas áreas urbanizadas, porque você traz um certo número de pessoas para morar nesse local, e aqui você fez um estudo, um planejamento, se aqui criou mais hospitais, se aqui criou mais UBS, se aqui criou mais um postinho de saúde, você recebeu tantas crianças, você aqui cria mais creche, você aqui tem a rede de asfalto, você tem uma coleta seletiva de lixo, você tem um comércio atuante. Você vê que é uma rede. Agora, quando eu pego essa turma aqui, eu levo para locais bem distantes, o Estado gasta de infra-estrutura, para um dia dizer que esse bairro é um bairro urbanizado. 
Deu certo porque criou uma linha de moradias, mas tem sua parte de erro. Agora deu errado quando as construtoras assumem muito e há um contexto de mercado, que vai continuar na mesma expectativa, a gente tem uma propensão de criar cidades  fantasmas. De que adianta construir, construir, e não ter morador? Você cria cidades fantasmas. Aí junto com o contexto da moradia, veio PROUNI, veio um acesso a outras coisas também, que ali há o consumo. Embora eu entre no contexto que se consumiu demais e educou menos.... houve acertos e erros. 

Luta e existência coletiva
A luta ela faz parte da minha vida, então não é necessário eu estar dizendo “eu luto”, “eu vou lutar”, “eu vou fazer”, “eu vou acontecer”, porque eu já faço, isso pra mim é o meu dia-a-dia. Quando eu levanto, eu já estou lutando, eu já tenho o que fazer, tenho uma responsabilidade, um compromisso. 
Em 1998 quando eu estava ainda totalmente arrebentada, eu vim de um contexto, saí da minha cidade de origem, deixei os meus filhos, saí de perto dos meus pais, saí de perto dos meus amigos. Eu vim pra São Paulo com a ilusão de vir para uma grande metrópole, com um bom emprego, uma moradia, todo aquele sonho de um refugiado interno, que  eu sou uma refugiada interna. Quando eu saio do meu Estado de origem, para vir buscar aquilo que o meu Estado tinha obrigação de fazer comigo, estou me refugiando. Chegando aqui, uma baita de uma ilusão, mas ao mesmo tempo com orgulho que eu não ia voltar derrotada pra ninguém bater nas minhas costas, e dizer assim “olha, eu disse, eu avisei, você é incapaz.” Então, já começa aí, eu estou totalmente arrebentada, com uma coisa que eu tenho dentro de mim, que todos nós temos que é um fascismo, de ego, onde a gente pensa no meu, no eu, no meu, no meu, no eu, eu vou buscar isso pra mim, eu vou buscar isso para os meus filhos, eu vou buscar isso pra aquilo isso, e isso pra mim. Então eu passo um período dormindo na rua, um período em albergue. No contexto do evangélico, eu tive que me adentrar via o chão, para poder ter humildade, para quando eu fosse ser exaltada, eu não esquecer de onde eu vim, o que aconteceu comigo. Para quem dormiu na rua, fui presidente de uma entidade que cuida de morador em situação de rua. Para quem ficou num albergue, pra quem não tinha nada, sem-teto, então me torno uma liderança no movimento sem-teto. Ainda não tenho a minha casa, mas já vi quase 4 mil famílias serem beneficiadas, tendo sua moradia digna. 
Então a luta ela é diária, contínua, pra quem tem vivência, pra quem de fato está indo, está buscando alguma coisa, dentro da sua ideologia, não fugindo do contexto, e tendo como meta o compromisso, a responsabilidade.  Essa pessoa não precisa toda hora estar enfatizando a luta, a luta, a luta, porque eu vou, porque eu vou, isso é natural.  Se você leu o Novo Testamento, você viu Jesus  Cristo andando e dizendo que ia buscar isso, que ia buscar aquilo? Não! Ele ia andando e a coisa ia acontecendo naturalmente, se acontecesse de fazer um milagre, ressuscitar alguém, acontecesse de pegar ali um pedaço de pão, dividir pra todo mundo, aconteceu. Se acontecesse de chegar num casamento e  não ter vinho, é porque alguém se equivocou e lá estava o vinho. Ele estava mostrando que é possível. É o milagre que ele tanto fala, que a Bíblia tanto fala, é o milagre da coletividade. Quando eu tenho um peixe e eu consigo dividir esse peixe para todo mundo comer um pedacinho, uma espinha que seja, eu estou fazendo um grande milagre. E ele quis dizer, com isso, que nós, humanidade, podemos fazer um grande milagre. Se a gente trabalhar no coletivo, a gente vai reproduzir saberes.  E quando produzimos saberes, estamos dizendo que é possível fazer o bem. Não sempre, o mal também é necessário.

Quem não luta está morto!
Essa frase [grito de guerra do MSTC] ela vem do seguinte... engraçado que sempre se volta à fé. Se você lê a bíblia, ela tem várias passagens que dizem que a fé sem ação é morta. Do que adianta eu pregar “Deus, Deus, Deus” se eu não acredito que Deus vai me dar força para eu levantar e trabalhar? Viver em cima da cama, prostrada, esperando que Deus mande do céu? Então é um  bordão que diz o seguinte; “se eu luto por direito, eu tenho que ter ação”. Porque se eu não tiver ação, ninguém vai saber que eu necessito daquele direito. Nós temos uma Constituição prostituída que é cheia de inciso, cheia de não sei o quê, cada dia se inventa uma PEC, cada dia inventa isso. Ela é totalmente prostituída. A Constituição de 1988 ela  não é limpa. Ela é prostituída, ela tem as leis pequenas. Como é que lá fora o governo vai saber que existe uma população que não tem onde morar? Se não tiver uma ação de reivindicar, se não tiver uma ação de ocupar? Então quem não luta,tá morto. A fé sem ação, ela não é fé. O direito jurídico na sua estrutura jurídica, né? Se você não tomar nenhuma resolução, nenhum inciso, não correr atrás dos incisos daquela Constituição, daquele direito, se você não fizer nada, ninguém vai saber que você precisa. Então esse bordão ele nasce em dizer que se nós não tivermos atitudes, ninguém saberá o quê nós necessitamos.

Transcrição de áudio: Vitor Daneu
Ler a céu aberto, projetar a luta.
A tarefa de partir do potencial literário, muitas vezes enclausurado em análises individuais e bibliotecas octogenárias, para a construção de uma resistência coletiva não é simples. Porém, a parceria entre a n-1 edições com o MSTC (Movimento Sem Teto do Centro) revindica o encontro de leituras e afetos múltiplos como o início deste complexo processo. Ao ler em voz alta, conspirações são tramadas, coalizões são formadas e posições são marcadas. Leitores em potencial sentam ao lado dos escritores e editores, produzindo um debate público, horizontal e amplo. Assim, o conteúdo das publicações toma a forma de uma experiência política. 
Neste sentido, repetindo suas “Leituras A Céu Aberto”, que em sua última edição recebeu o escritor Marcelino Freire, a Ocupação Nove de Julho (Rua Álvaro de Carvalho, 427) terá a presença da contista Elisa Band em seu mensal almoço dominical, no dia 24/03. A autora de “Perecíveis” lançará o conto “12 milímetros”, a ser vendido a dois reais. Parte da renda obtida com as vendas será revertida para a biblioteca da Ocupação.

Colaborou Rodrigo Falcão



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Céu Aberto 1 – Ocupação 9 de Julho (MSTC)
Ao contrário de uma uniformidade social no espaço, o centro da cidade de São Paulo apresenta uma multiplicidade significativa. Basta ver de perto. Sem este cuidado, um certo prédio na rua Álvaro de Carvalho seria apenas mais um. Mas, a potência de vida que saía dos olhos de seus moradores produzia um espaço muito maior que uma mera torre de concreto. Ocupação.
Esta comuna central foge do isolamento. Em um almoço dominical, abrem-se as portas. As mais diversas fronteiras são ultrapassadas pelos outros dos outros. E, ao comer um baião de dois, adquirir um livro, tomar uma cerveja ou dançar, os corpos ocupantes, dos moradores ou não, atualizam a noção de lutar coletivamente. Neste encontro inesperado de afetos, alianças são firmadas.
A partir do pacto entre o MSTC e a n-1 edições, o escritor Marcelino Freire, através de sua fala verborrágica, dramatizou a vida dos trabalhadores brasileiros e a visão da paz para quem vive a guerra. O conto “Quentinha”, lançado no local e vendido a dois reais, também fora lido, suscitando diversas falas dos presentes. Entre o peso das falas e o prazer de estar naquele local, dona Carmen pediu a nós: “Deixa essa entidade baixar, se manifestar em vocês. Se joga!”. A potência sonora das falas e as potencialidades destas palavras valem muito mais do que apenas livros nas estantes de uma biblioteca.

21.02.2019
Colaborou Rodrigo Falcão



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Texto integral da entrevista dada pela n-1 edições
a Nelson de Sá, da Folha de São Paulo

1. O que levou à fundação da n-1 edições? Vcs perceberam um vazio, na produção editorial brasileira, em relação aos temas que ela prioriza? Aliás, como vc descreveria a trajetória da editoria e seus temas?
PPP- Há no Brasil excelentes editoras, e várias delas cumpriram seu papel histórico com coragem e dignidade. E sem dúvida, parte de nossa formação devemos a elas. Mas sentíamos falta, sim, e isto há já alguns anos, de textos que tocassem no nervo da contemporaneidade, que ousassem uma teorização heterodoxa, que deslocassem o eixo de nosso pensamento, reativando a afetividade que lhe pertence. Daí a nossa aposta em autores desconhecidos ou inéditos entre nós (Mbembe, Preciado, Deligny, Uno, Lapoujade, Lazzarato, Massumi). Não se tratava, obviamente, de inventar novas celebridades nem trocar de mestres. Mas através da inversão de perspectiva, conectar-se com linhas de força presentes entre nós, e que pediam passagem. Cada um desses autores, quando publicado em português, conjugou-se a movimentos já muito presentes aqui: Crítica da razão negra, de Mbembe, rapidamente esgotado, interessou os movimentos negros e pesquisas relativas à história da escravidão e do racismo. Paul B. Preciado teve uma recepção entusiasta por parte da comunidade LGBTQ, bem como de uma geração que vive no próprio corpo um deslocamento evidente em suas práticas sexuais – o mesmo ocorreu com Teoria King Kong, de Virginie Despentes. Um livro importa pelos encontros que ele suscita, pelos acontecimentos que provoca, pela rede na qual ele se insere, que ele nutre e pela qual é nutrido para multiplicar-se e produzir novas percepções, novos afetos, novos movimentos. Não significa que nos dedicamos às ditas minorias, apenas, mas sim que nossos livros dizem respeito a deslocamentos tectônicos que ocorrem em nossa atualidade e em nosso país, que mexem com o estatuto dos pobres, das mulheres (e, logo, dos homens), LGBTQ, negros (e, logo, dos brancos), indígenas, doidos, autistas, artistas, historiadores, pensadores. Aliás, é contra todas essas “minorias” perseguidas há tempos ou vetores diabolizados que o fascismo atual se volta ainda mais furiosamente. O que comprova retroativamente o acerto dessas escolhas.

2. O que integra a escolha de livros políticos como os três do Comitê ou o não-manifesto de Negri e Hardt com as obras de Deleuze, Guattari e Foucault e o teatro Heiner Müller?
Não cabe a uma editora ser veículo de um partido político, muito menos porta-voz de qualquer doutrina. Sua existência, no entanto, pode significar uma intervenção no campo das ideias e das práticas. Assim, uma entrevista com Foucault sobre a revolução iraniana (O enigma da revolta), um manifesto do Comitê Invisível, um anti-manifesto de Negri, um estudo de Deleuze sobre Nietzsche, ou Viveiros de Castro (Metafísicas Canibais), ou de Laymert Garcia dos Santos sobre a Ópera Amazonia, ou de Suely Rolnik (Esferas da insurreição), ou de Brian Massumi (O que os animais podem nos ensinar sobre política) não dizem a mesma coisa, não tratam do mesmo tema, não têm a mesma perspectiva. Mas cada um deles, e tantos outros não mencionados aqui, com seu estilo, perspectiva, tema, possui uma dimensão política necessariamente, já que implica num deslocamento no campo dos saberes, poderes, práticas, subjetividade. É possível pensar diferentemente, perguntava Foucault? A sexualidade, a negritude, a loucura, o autismo, os indígenas, os animais, a terra, a floresta, podem ser problematizados conforme as reviravoltas a que assistimos hoje, aqui, agora, entre nós? Não de novo “falar sobre” estas, mas deixar-se infletir por elas... Eis questões que reverberam entre si, que fazem rede, e que podem reativar uma sensibilidade política e uma radicalidade do pensamento que pareciam perdidas. Nada disso precisa ser bombástico – acreditamos na sobriedade também (Walter Benjamin, os cacos da história, de Jeanne Marie Gagnebin), no tom menor, na sutileza (As existências mínimas, de Lapoujade), no passo de pomba, até no devir-imperceptível. Ler ainda pode ser um ato de solidão, de perplexidade, mas também de irreverência, de ruptura, de contágio multitudinário. O silêncio da leitura pode abrir-nos para mundos desconhecidos, e fornecer assim instrumentos, inspiração, imaginação para outras linhas de vida. Mas também as leituras coletivas, os grupos de estudo, as leituras a céu aberto (nossa coleção A céu aberto, para contos a serem lidos em ocupações, periferias, cracolândia, etc) têm sua função. Portanto, nosso catálogo não é uma lista de livros políticos, mas de pensamentos que, direta ou indiretamente, lidam com o que poderíamos chamar políticas da vida. Agamben disse com muita propriedade: os editores deveriam deixar de investir na lista infame dos mais vendidos, e sustentar um catálogo mental dos livros realmente necessários.

1. Vc pode resumir o que levou ao surgimento do Comitê? E como ele ajuda a compreender grandes manifestações e revoltas neste século, como aquelas de 2005, nos subúrbios de Paris, e agora o movimento dos coletes amarelos?
2. Contribuições para uma Guerra em Curso, que está saindo pela editora no Brasil, já foi publicado na França? A obra tem alguma relação com o artigo de mesmo nome (ou quase) que saiu na Lundimatin no início de dezembro, no início dos novos protestos?
3. O que vc pode comentar, em off se preferir, sobre a relação do Comitê Invisível com Julien Coupat, que chegou a ser detido também no início das manifestações, em dezembro?
4. Os livros (e outras publicações consideradas próximas do Comitê) relacionam os movimentos na França com aqueles de outros lugares do mundo, como a Primavera Árabe. O que os liga? Quais são as características que os aproximam?
5. Isso vale tbém para o Brasil, para os movimentos de 2013, a ascensão da extrema direita e as eventuais alternativas de protesto e oposição no futuro?



O Comitê Invisível
Eis um “nome” que reafirma a força política do anonimato. Se a autoria em nossos dias é um trampolim para a celebridade, um veículo para o narcisismo ou a picareta para o alpinismo cultural, é preciso lembrar que ela surgiu no passado também como um dispositivo de responsabilização penal: quem escreveu essa blasfêmia, quem pregou a derrubada do Príncipe, quem deve ser incriminado? Por conseguinte, tal como as máscaras nas manifestações de hoje, o anonimato é uma estratégia de despiste frente aos instrumentos repressivos do Estado. Não à toa os “mascarados” foram proibidos nos atos públicos ultimamente. É preciso mostrar o rosto, poder ser identificado e virar alvo de processo criminal. Até mesmo um jornal como a Folha de São Paulo recusa publicar um texto anônimo – falo por experiência pessoal. [Por ocasião da recusa da Cátedra Foucault na PUC-SP tentei publicar uma entrevista fictícia com um Foucault depois da morte, e por razões óbvias não queria ser identificado - o texto só saiu porque levou a assinatura de uma colaboradora].
Para além desse embate policialesco, certa tradição que começa em Nietzsche e atravessa o século XX até Blanchot e Foucault tratou de destituir o eu (o sujeito, o autor) como fonte ou centro da obra. É o fim da propriedade privada no plano do pensamento, e a percepção de que a linguagem, assim como a terra ou a água, são da ordem do comum, na contramão de uma privatização crescente de tudo.
Pode-se objetar que o anonimato hoje é praticamente impossível. Os dispositivos digitais são capazes de rastrear tudo. De fato, qualquer um pode consultar o Google ou a Wikipedia e imediatamente encontrará o nome dos supostos participantes do Comitê Invisível, um resumo de sua trajetória, ou a súmula caricata das ideias em jogo. Isto não retira em nada a força cortante de seus textos. O estilo cáustico e demolidor, a radicalidade política, existencial, vital, impacta o leitor já nas primeiras frases. Por exemplo: “Todas as razões para fazer uma revolução estão aí. Não falta nenhuma. O naufrágio da política, a arrogância dos poderosos, o reino do falso, a vulgaridade das riquezas, os cataclismos da indústria, a miséria galopante, a exploração nua, o apocalipse ecológico – de nada somos poupados [...] Todas as razões estão reunidas, mas não são as razões que fazem as revoluções, são os corpos. E os corpos estão diante das telas.” (Agora: Motim e destituição) Ou então, na esteira das revoltas que espocaram desde a primavera árabe até as jornadas de junho de 2013 no Brasil: “As insurreições chegaram. Mas não a revolução. Raramente veremos, como nestes últimos anos, num lapso de tempo tão condensado, tantas sedes de poder oficial tomadas de assalto, desde a Grécia até à Islândia. Ocupar praças bem no centro das cidades e aí montar barracas, e aí erguer barricadas, refeitórios ou tendas, e aí reunir assembleias, tudo isso em breve se tornará um reflexo político básico, como ontem foi a greve. [...] Mas por maior que seja a desordem sob os céus, a revolução parece sempre se asfixiar na fase de motim. [...] Nesse ponto, é preciso admitir, nós, os revolucionários, fomos derrotados.” (Aos nossos amigos – Crise e insurreição). Todo o esforço desses textos está em diagnosticar onde e como a esquerda mesma enterrou a revolução enquanto processo, desejo, irreverência, criação de mundo.
Claro, não faltam nestes livros libertários referências históricas, desde a Comuna de Paris até Maio de 68. Quanto aos autores invocados, mesmo quando não são mencionados (não há notas de rodapé!), compõem uma nebulosa contestatária que inclui Debord, Agamben, Foucault, Deleuze-Guattari, Viveiros de Castro, mas também Marx, Benjamin, Espinosa... Ou ainda Walser, Musil, Blanchot. A erudição em momento algum se traduz em academicismo estéril. A análise corrosiva funciona como uma metralhadora giratória, sem concessões humanistas ou piedosas, sem ortodoxias doutrinárias ou partidárias, sem tolerância para com o assembleísmo ou a Realpolitik, donde os coices, por vezes raivosos e até injustos, a “vizinhos” como Negri, operaístas ou teóricos do cognitariado, ortodoxias marxistas, ou até mesmo a movimentos que “negociam” com a polícia o trajeto e o horário de suas manifestações.
O livro que publicamos agora, Contribuição para a guerra em curso, apareceu originalmente no primeiro número da revista Tiqqun. Vem de Tiqqun Olam, conceito da tradição judaica que significa reparação, restituição, redenção do mundo. Quem eram seus autores? Ninguém assinava os textos, não havia menção a um comitê de redação. Invocavam um tal de “Partido Imaginário”. O segundo número levava o subtítulo de Zona de Opacidade Ofensiva. E o principal: tratava-se de ler o contexto contemporâneo como uma guerra civil entre formas-de-vida. Ora, como não perceber a atualidade dessas ideias e análises no Brasil de hoje? Não vivemos nós uma guerra civil, com a militarização declarada do enfrentamento político, onde o fascismo ascendente pretende suprimir as formas-de-vida que não obedeçam a seu padrão branco-macho-conservador-evangélico-heteronormativo-patriota-neoliberal-humano-demasiadamente-humano? Há exemplo mais gritante do que o nosso de uma guerra civil declarada e tamponada a um só tempo, do uso ilimitado da violência institucional ou jurídica sob o manto risível da democracia?
Tiqqun durou dois números e sumiu. Entrementes, vários livros sob essa “autoria” anônima vieram a lume. Teoria do Bloom descrevia a metafísica do homem comum contemporâneo e planetário, na sua vacuidade, no seu analfabetismo afetivo, no turismo existencial em que se agarrava. Teoria da moça punha em xeque a mulher-objeto. E o livro que publicaremos ainda este ano leva o título saboroso: Tudo deu errado, viva o comunismo!
Extinta a revista, alguns de seus membros (anônimos) fundaram uma comunidade singular em Tarnac, em ruptura com a forma-de-vida predominante. Atribuiu-se a eles a sabotagem contra um trem de alta velocidade (TGV), através de um gancho de ferro pendurado na linha elétrica, interrompendo por horas o tráfico ferroviário da região. Duas pessoas foram presas, sob pretexto de terrorismo, também acusadas de terem participado de uma explosão nos Estados Unidos, em 2008. A acusação referia-se à criação de uma “célula invisível”, em meio a um grupo “anarcoautonomista” (!), no mais puro estilo dostoyevskiano de Os demônios. Demorou anos para que a acusação fosse arquivada e a unidade antiterrorista afastada do caso, uma vez comprovada a “montagem” policial (e o atentado ao trem acabou sendo reivindicado por um grupo alemão). Por anos a comunidade de Tarnac permaneceu sob vigilância estrita, escuta telefônica, rastreamento digital, suspeita de terrorismo.
Nos últimos anos, já sob o novo nome de Comitê Invisível (não haveria aqui uma reversão no sentido da acusação policial, a da formação de uma “célula invisível”?), foram publicados três livros: A insurreição que vem, com grande impacto, Agora: Motim e destituição e Aos nossos amigos: Crise e insurreição, estes últimos publicados pela n-1 edições.
Ainda uma palavrinha sobre o caráter anônimo dessa sequência editorial. Vira e mexe sou perguntado se faço parte do Comitê Invisível. Na verdade, a exemplo da Comunidade Inconfessável de Blanchot, que não era composta por nomes reais, mas perfazia uma constelação de pensamento e de escrita, a meu ver trata-se aqui de algo parecido: dar voz ao que a literatura oficial ou a instituição acadêmica ou a sociedade de controle ou os mecanismos partidários não suportam – uma modalidade outra de presença/ausência, mobilização/dispersão, comum/incomum, sujeito/anônimo, clandestinidade/irrupção, violência do Estado/contra-violência de resistência. Nessa sociabilidade almejada, fala um desejo de comunidade que passe ao largo das emboscadas institucionais, doutrinárias, superegóicas.
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Para finalizar, gostaria de mencionar dois títulos que estão no prelo e completam essa espécie de guerrilha editorial a que nos propomos. Um é O desencadeamento do mundo: a nova lógica da violência, de François Cusset – um dos textos mais lúcidos sobre as modalidades de violência que perpassam a atualidade, diferenciando a violência “fria” (econômica, jurídica, institucional) da violência “quente” (policial, miliciana, familiar etc). Aplica-se como uma luva ao caso brasileiro, e ajuda a pensar a escalada de violência, sem ficar na generalidade da denúncia moral.
O outro é Fascismo ou revolução? O neoliberalismo em chave estratégica, de Maurizio Lazzarato, livro recém concluído, que sairá no Brasil antes mesmo de ser publicado na França. As primeiras páginas se debruçam sobre o fenômeno Bolsonaro, lançando luz agudíssima sobre a conjunção entre fascismo e neoliberalismo que sua eleição representa, bem como entre governamentalidade e guerra civil. Ao repensar a relação entre macropolítica e micropolítica, Lazzarato ousa revisitar criticamente a noção de revolução e devolver-lhe a urgência e a necessidade, à luz de uma teorização renovada.
Independente das afinidades que enxergamos entre os vários autores que publicamos, embora eles mesmos se critiquem mutuamente, por vezes com grande aspereza, pensamos que todos revolvem um mesmo campo de problemas, e podem ser de grande valia para analisar o panorama sinistro que atravessa o Brasil e o mundo hoje, bem como as possibilidades de reversão que ele traz embutido. É um cardápio para tempos de indigestão fascista.




Entrevista com Centelha

1. O nome é Comitê X? Ou é uma maneira de se a ele, enquanto não sai o primeiro manifesto ou livro? A previsão é que saia em abril? A editora será a n-1?
“Centelha” porque nossas ações são mais uma entre as muitas ações de contestação da ordem capitalista que surgirão no país nesse momento de colapso de toda forma de governo possível. Nossa primeira ação é um livro que sairá em maio pela editora n-1. Outras virão.

2. Qual a ligação do Centelha com grupos como o comitê invisível?
Centelha é um dispositivo de combate de redimensionamento da imaginação política. Ele se soma a várias organizações, em várias partes, que visam abrir novamente o campo do político para experiências de transformação radical. Muitas dessas organizações são anônimas porque recusam os nomes e as formas de nomear que circulam atualmente. Contra a visibilidade atual, que já é em si todo um programa e um forma de vida, apostamos na força de novas invisibilidades.

3. Em linhas gerais, no que for possível adiantar, como o comitê brasileiro vê as manifestações de 2013, a derrocada dos governos petistas e a ascensão de Bolsonaro?
Em junho de 2013 foi aceso o pavio de uma bomba que explodirá a qualquer momento, e o que se seguiu foi um esforço inútil de interrupção desse processo. A esquerda que existia até então se mostrou incapaz de dar resposta à altura para a revolta popular. Não conseguiu nem reprimir os descontentes nem desmobilizá-los mediante a satisfação falseada de suas demandas radicais. Vendo o formidável savoir-faire petista de amansar conflitos de classe falhar, o Estado - forças armadas em primeiro lugar - acordou para a dimensão colossal da crise social que se avizinha, e disparou o alerta vermelho da contrarrevolução preventiva. Nas eleições de 2018, dada a ausência de uma esquerda anticapitalista, a população comprou a única solução à altura do momento histórico, que foi dada pelo Partido Empresarial-Militar, com o Capitão Messias à frente. A solução da extrema-direita, porém, não é uma alternativa ao sistema, mas uma alternativa do sistema. Se a esquerda superar seu passado conciliador e se provar a legítima canalizadora da ira popular, essa solução fracassará e o jogo virará completamente.

4. Existe algum trecho ou esboço ou qualquer texto escrito que possa ser fornecido para publicar em destaque no jornal?
“Nossa democracia não está no passado, pois ela não pode estar onde ela nunca existiu. Ela está a nossa frente, como uma invenção radicalmente coletiva que só acontecerá quando calarmos de vez a melancolia que o poder nos impõe e à qual nos vinculamos com um prazer inconfesso. Saibam que contra esse desejo de fazer o mundo desabar ainda veremos todas as forças se levantarem. O fascismo sempre foi a reação desesperada contra a força de uma revolução iminente. Se ele voltou agora é porque o chão treme, é porque as rachaduras no edifício da ordem estão grandes demais para serem escondidas. Ouçam como treme o chão, como há algo que quer atravessar o solo. Não nos deixemos enganar mais uma vez: vivemos uma contrarevolução preventiva que não temerá recorrer à violência extrema para nos calar. Mas não estamos perdendo, apenas somos incapazes atualmente de imaginar a nossa própria vitória” (Trecho da introdução da primeira publicação da Centelha).





Sobre o aspecto gráfico: Ao pensarmos nossas publicações como livros-objetos, o que está em jogo é uma articulação entre forma e conteúdo. Ademais, a combinação de métodos artesanais com industriais está relacionada com a proposta de pensar um livro em sua potencialidade sensorial. É o caso de Aos nossos amigos, cuja capa tem um canto queimado de verdade, um a um, com maçarico, como se saísse de um combate incendiário. Ou O corpo utópico, As heterotopias, de Foucault, onde o reverso da capa desdobrável é em prata espelhada e precisa da página vizinha para dar a ler um texto de Foucault impresso ao avesso: MINHA MANEIRA DE NÃO SER MAIS O MESMO É, POR DEFINIÇÃO, A PARTE MAIS SINGULAR DO QUE SOU.
Ricardo Muniz Fernandes é o diretor de arte da editora e trabalha conjuntamente com Érico Peretta, responsável pela implementação do projeto gráfico.
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